17.11.09

12.11.09

maldita impossibilidade que parece zombar dos amantes

Quase deu certo. Éramos um casal quase perfeito: você vivia de Clarice e eu de Caio, éramos poéticos e harmoniosos enquanto tampávamos o que pairava de errado entre nossas mãos dadas. Mas a gente nem parava para reparar o que quase era errado, porque estávamos sedentos por novidades, descobertas e assim fomos percorrendo todas as instâncias da vontade. Em certas horas, estávamos entregues a desejos, em outras a medos primários, buracos internos que ainda sangravam e geravam impossibilidade. Talvez seja normal, entre os amantes, o pêndulo da impossibilidade: de um lado, éramos qualquer coisa que provocasse um quase pulso, no entanto, quando pendíamos para o lado oposto, a falta sufocava e adentrava entre nossos corpos durante o abraço quase diário.

Ficávamos quietos na ânsia desesperada da compreensão de nós mesmos, trocávamos farpas e declarações tortas de um futuro com os olhos, foi assim durante todo o tempo em que me considerei quase tua. Me sentia tão envolvida com teu discurso poético que mal produzia as minhas próprias poesias, era mais ou menos um tempo em que a vida do outro ganha um sentido maior do que se espera, talvez por não querer que a sua, sozinha, tenha tanto sentido. Ou talvez pelo quase sentido que duas vidas, juntas, podem gerar. Ou por qualquer outro sentido que salve o sentido que sufoca.

E íamos quase nos perdendo nos lençóis, quase deixávamos mensagens de amor para construir qualquer coisa que quase fosse barrar a impossibilidade de sermos exatamente aquilo que desejaríamos ser se não fosse o quase. Um quase meu e aquele quase teu que hoje ainda deixa uma sensação que quase tudo é possível, que longe e sós não existiria esse tal advérbio de pouca intensidade e poderíamos nos entregar aos lençóis e aos poemas de dias acumulados de saudade.

Ai nessa parte, quando ninguém está observando e o sol vai embora, a gente acredita que o tempo volta, que as canções são nossas e que teu cheiro ainda faz parte da minha pele. Até voltarmos para a realidade dos amantes mal amados e que os livros, uma vez publicados, sempre terão o primeiro parágrafo, não adianta pular, nem rasgar. Começar a história pelo segundo parágrafo seria perder parte da descrição: meu vestido branco em um corpo molhado de suor que Alceu cantou, só para você lembrar de mim, naquela madrugada. E o que seria de nós sem nossas lembranças de verão? Uma impossibilidade?

E que briga é essa? E que loucura é essa de alimentar esse quase? Que necessidade é essa de manter essa relação que ninguém sabe assumir, ninguém sabe resumir e muito menos resolver? Ah, o quase. Quase sabemos da impossibilidade, do sufoco e, como loucos, nos atiramos em abismos de verdades, doa a quem doer. E dói. Quase deixa cicatriz.

Hoje, confesso que consigo quase entender a tua falta dentro dos meus planos, o amor que quase derramei em versos descarados e públicos destinados aos teus sonhos que me incluíam. Também sei que hoje faço parte da saudade que alimentas todas as noites em que a vida não bate na tua porta e te chama para o bar mais próximo. Talvez, no bar, eu também seja uma falta que você beba em goles largos e quentes. Porque, para sempre, eu vou ser um aquiloquepoderiadarcerto no meio do teu peito e você vai ser um quase preso na minha garganta.

Mas, calma, até que nem tanto esotérico assim. Se somos incompreensíveis, a nossa história é mais. O nosso futuro é uma incógnita cheia de expectativas e uma noite que não teve beijo de despedida. Sabe-se lá o que virá e em que velocidade. Quase esqueço que isso de esperar o que não é e nem pode ser promessa é a forma mais desesperada de matar qualquer coração que lute pela sobrevivência. Quase esqueço que com você é sempre um quase e me adentro nos teus olhos castanhos que me arrastam feito ímã para qualquer canto que não habite o impossível e nem o improvável.

Maldita impossibilidade que parece zombar dos amantes.


C.

9.11.09

Espero que você saiba:

quando a vontade não é realizada, cristaliza-se e não dissolve. Pesa. Pois bem, agora que sabes o meu real peso, chegue à minha porta e entre, pode até não pedir licença e nem atinar para o que seja doce, do lado de dentro, mas me arranque dessa cama, com as mãos meladas de vida. Você pode melar meu corpo inteiro, deixar marcas de um passado aquarelado na minha blusa branca de marca e ressuscitar as minhas necessidades. O mundo seria outro e eu esqueceria essa sensação de viver aos poucos, quando desse. Aí a gente iria onde o sol acompanhasse, com aquele meu sorriso de primavera e teus olhos de outono.

Eu não queria nada demais, só impulso.

As poesias ficariam por minha conta.

Você me pega pela mão e me tira daqui.

Me pinte com tuas cores e me envolva com tuas histórias.

Vai, abre a porta e me atira em você.

Eu só quero poder dizer, sem medo, que.





* Abri a porta
, te

4.11.09

O vento de Recife carrega saudade. E vai passando pela gente como a gente vai passando pelos prédios antigos, abandonados e cheios de histórias de saudade. O vento, naquele dia, me carregou para dentro da vida.
A Avenida Boa Viagem, em alta velocidade, pintou o final tão esperado da nossa tela. Sim, faltava algo, guardei o pincel da esperança sem muita tinta, só com resquícios de um abraço-ninho, de um companheirismo outrora infalível e tons de vermelho – só para garantir nossa paixão por esse amor que explodia em madrugadas etílicas. Durante o percurso, fui me lembrando das minhas lágrimas antecipadas quando partisses, o desespero ganhando morada dentro do peito, a sensação estranha de perda, de solidão. Foram lágrimas destinadas a tua presença sempre ausente, a tua loucura sem sentido, sem cheiro, as palavras que nem ousasses dizer. Foram lágrimas de verdade, a verdade que viria a tona nas próximas chegadas do teu voo. Corriam pelo meu rosto maquiado, os segredos, os medos, as ... você. Inteiro. Mas, como disse, o vento de Recife carrega a saudade congelada dos nossos dias de outono. A cada quilômetro rodado, em silêncio, eu ia me transbordando de alegria, no banco de trás, ia me contorcendo de felicidade por estar perto de você. A simples sensação de estar perto de você me fazia chorar lágrimas doces de felicidade.
É porque doía ver a tua essência ir embora pelos teus dedos, pelos teus gritos desnecessários e pela tua forma estúpida de agir. Contradizia com tudo aquilo que plantamos na infância, além das papoulas no jardim de voinha e dos bolinhos de areia no jardim da rua do lado. A gente cresceu sendo regado por amor, lembra? Me deu medo de que, um dia, você não lembrasse.
Foram-se as declarações de amor rasgadas, muito amor pertence a uma época diferente, infância, adolescência, não sei. Adultos, ainda distantes, você ao redor já é motivo de abraço. E no abraço, você sabe, a gente acaba se perdendo, para no final, sorrir.
Para você, meu coração está aberto. Mesmo que o seu não seja o mesmo.


20.07.2009
luminosa, por dentro.

28.10.09

Colorida

Tenho saudade das caixas de lápis de cor. Há uma semana, andando por um corredor de um supermercado qualquer, parei na frente da infindável prateleira de lápis de cor. Foi que nem ímã, paixão repentina, essas coisas que agarram a tua atenção como um abraço demorado. Em segundos, me vi dentro nas cores daquela caixa, lembrei das minhas coleções de todas as cores, formas, marcas e tamanhos. Nem todos os desenhos eram coloridos, nem sempre chegavam ao fim, entretanto o importante era manter os lápis sempre perto do meu campo de visão e me deliciar em expor a aquarela.
Não me contive, abri a caixa, devagar. Havia várias tonalidades de azul e, no meio deles, o meu tom preferido, não era claro demais e nem escuro demais. Era, apenas, do verbo brilhar. O dia em que decidi me transformar em azul chegou à lembrança, ao invés de rabiscar o papel, decidi colorir a minha alma, a-qua-re-lar tudo o que sobrava, as idas e vindas das minhas vontades, foi instintivamente sábio e delicioso. Hoje, o azul tomou conta da minha vida e fez ninho.
O vermelho foi se infiltrando, aos poucos e em goles grandes. Cada rabisco avermelhado me dizia que não havia escapatória, o vermelho estaria sempre presente em mim. Nas unhas, nas veias, no lápis chegaria, sem pedir licença e sentaria do meu lado, cheio de declarações inusitadas de amor e ódio.
Meus olhos saíram percorrendo e deixei um sorriso pular do rosto ao me deparar com o verde. A cor me ilumina, traz a paz daquela amizade. Um verde claro e vivo, bem vivo.
O preto das minhas letras desenhadas, o amarelo e a agonia do laranja. O dourado e seus detalhes. O roxo da borboleta, lembra?
O importante era estar colorido, trazer as cores para aquele cotidiano. Todas elas.
Sai daquele corredor combinando o meu encontro com as cores.

Colorida.

AQUI - acordei de braços dados com o papel.
AQUI - do que pulsa.