O avesso de uma menina ou uma menina pelo avesso.
maldita impossibilidade que parece zombar dos amantes
Quase deu certo. Éramos um casal quase perfeito: você vivia de Clarice e eu de Caio, éramos poéticos e harmoniosos enquanto tampávamos o que pairava de errado entre nossas mãos dadas. Mas a gente nem parava para reparar o que quase era errado, porque estávamos sedentos por novidades, descobertas e assim fomos percorrendo todas as instâncias da vontade. Em certas horas, estávamos entregues a desejos, em outras a medos primários, buracos internos que ainda sangravam e geravam impossibilidade. Talvez seja normal, entre os amantes, o pêndulo da impossibilidade: de um lado, éramos qualquer coisa que provocasse um quase pulso, no entanto, quando pendíamos para o lado oposto, a falta sufocava e adentrava entre nossos corpos durante o abraço quase diário.
Ficávamos quietos na ânsia desesperada da compreensão de nós mesmos, trocávamos farpas e declarações tortas de um futuro com os olhos, foi assim durante todo o tempo em que me considerei quase tua. Me sentia tão envolvida com teu discurso poético que mal produzia as minhas próprias poesias, era mais ou menos um tempo em que a vida do outro ganha um sentido maior do que se espera, talvez por não querer que a sua, sozinha, tenha tanto sentido. Ou talvez pelo quase sentido que duas vidas, juntas, podem gerar. Ou por qualquer outro sentido que salve o sentido que sufoca.
E íamos quase nos perdendo nos lençóis, quase deixávamos mensagens de amor para construir qualquer coisa que quase fosse barrar a impossibilidade de sermos exatamente aquilo que desejaríamos ser se não fosse o quase. Um quase meu e aquele quase teu que hoje ainda deixa uma sensação que quase tudo é possível, que longe e sós não existiria esse tal advérbio de pouca intensidade e poderíamos nos entregar aos lençóis e aos poemas de dias acumulados de saudade.
Ai nessa parte, quando ninguém está observando e o sol vai embora, a gente acredita que o tempo volta, que as canções são nossas e que teu cheiro ainda faz parte da minha pele. Até voltarmos para a realidade dos amantes mal amados e que os livros, uma vez publicados, sempre terão o primeiro parágrafo, não adianta pular, nem rasgar. Começar a história pelo segundo parágrafo seria perder parte da descrição: meu vestido branco em um corpo molhado de suor que Alceu cantou, só para você lembrar de mim, naquela madrugada. E o que seria de nós sem nossas lembranças de verão? Uma impossibilidade?
E que briga é essa? E que loucura é essa de alimentar esse quase? Que necessidade é essa de manter essa relação que ninguém sabe assumir, ninguém sabe resumir e muito menos resolver? Ah, o quase. Quase sabemos da impossibilidade, do sufoco e, como loucos, nos atiramos em abismos de verdades, doa a quem doer. E dói. Quase deixa cicatriz.
Hoje, confesso que consigo quase entender a tua falta dentro dos meus planos, o amor que quase derramei em versos descarados e públicos destinados aos teus sonhos que me incluíam. Também sei que hoje faço parte da saudade que alimentas todas as noites em que a vida não bate na tua porta e te chama para o bar mais próximo. Talvez, no bar, eu também seja uma falta que você beba em goles largos e quentes. Porque, para sempre, eu vou ser um aquiloquepoderiadarcerto no meio do teu peito e você vai ser um quase preso na minha garganta.
Mas, calma, até que nem tanto esotérico assim. Se somos incompreensíveis, a nossa história é mais. O nosso futuro é uma incógnita cheia de expectativas e uma noite que não teve beijo de despedida. Sabe-se lá o que virá e em que velocidade. Quase esqueço que isso de esperar o que não é e nem pode ser promessa é a forma mais desesperada de matar qualquer coração que lute pela sobrevivência. Quase esqueço que com você é sempre um quase e me adentro nos teus olhos castanhos que me arrastam feito ímã para qualquer canto que não habite o impossível e nem o improvável.
Maldita impossibilidade que parece zombar dos amantes.
C.
Espero que você saiba:
quando a vontade não é realizada, cristaliza-se e não dissolve. Pesa. Pois bem, agora que sabes o meu real peso, chegue à minha porta e entre, pode até não pedir licença e nem atinar para o que seja doce, do lado de dentro, mas me arranque dessa cama, com as mãos meladas de vida. Você pode melar meu corpo inteiro, deixar marcas de um passado aquarelado na minha blusa branca de marca e ressuscitar as minhas necessidades. O mundo seria outro e eu esqueceria essa sensação de viver aos poucos, quando desse. Aí a gente iria onde o sol acompanhasse, com aquele meu sorriso de primavera e teus olhos de outono.
Eu não queria nada demais, só impulso.
As poesias ficariam por minha conta.
Você me pega pela mão e me tira daqui.
Me pinte com tuas cores e me envolva com tuas histórias.
Vai, abre a porta e me atira em você.
Eu só quero poder dizer, sem medo, que.
* Abri a porta , te
"Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas."
Fernando Pessoa