20.7.08

Desritmado

- Já tentei de tudo pra te decifrar. Já me disseram maneiras, eles me deram mil conselhos, formas baratas de te devorar. Será que temos que ter explicação pra tudo? Pra nós, não basta sentir, queremos sempre os porquês.
- Até quando você acredita nesse meu “código indecifrável”? Eu me reciclo de madrugada, é por isso que fica difícil a compreensão. E sabe porquê? Porque eu tenho medo de ser a mesma todos os dias, de cair na rotina insuportável do ser. Talvez nada tenha explicação e seja mania nossa exigir os porquês e as causas. Talvez tudo tenha sentido e estamos sempre certos em procurar sair dessa roda viciante da ignorância. Uma vez, você me disse que as certas coisas eram tão certas como a chuva que cai, mas essa chuva só serve para alimentar à alma da gente de esperança, para umedecer à pele. Nada é tão certo assim.
- Te escrevo, num segundo, coisas que te façam crer. Estou desconexo hoje, não consigo seguir uma linha raciocínio certa e inabalável.
-Você me faz crer. Crer que as pessoas ainda se encontram nesse mundo, crer que não existe o acaso, o destino. Você me faz acreditar nas certezas que eu mesma elaboro, na felicidade imensa que transborda das minhas letras. Sabia que eu gosto do teu ser abalável? Mostra que tu não és conexo, de início, meio e fim certos, intencionalmente corretos. Assim como você, eu prefiro o desorganizar, a sede incessante por algo inexplicável, desajustado.
-Você tem muitos medos?
-Não,mas os que eu tenho são bem grandes. Tenho medo de ver a vida passar. Me deixei levar tanto por esse medo que hoje estou presa às tarjas pretas. Ah, às vermelhas também. E você?
-Tenho medo porque não tenho medo. Quando nada faz sentido, falta até medo e até o medo faz falta. Todo mundo já teve necessidade de saber por quem os sinos dobram.
-Tanta coisa faz falta. A falta que completa a falta. Da contradição constante da vida, do absurdo. Não sei do que eu sinto falta, aliás, eu sei,mas essa coisa ainda não tem nome.
- Você acha que a gente pode ser feliz sem alguém?
-Não sei. Depende do contexto de cada um. Eu preciso de alguém.
- Eu também preciso disso e parece algo tão distante..
-Distante como?
- Ser feliz com alguém. Me sinto atrás de um muro de Berlim,sozinho.
-Ninguém nunca te completou?
-Completou e partiu..deixou faltando um pedaço que ainda não reencontrei por aqui. Um caso de amor mal resolvido. E já tentaram tanto me amar, mas não me completava..tentei me enganar,mas não adiantou. É a tal história do muro, me sinto distante das coisas que me fazem bem..
- Eu aprendi a atravessar barreiras,a transcender e sentir isso na pele. O amor quebra muros.
- Não adianta pensar em tudo que poderia ser, né?
-Não. Eu gosto das aventuras da vida, de encontrar pessoas, no meio do nada, e perceber o quanto elas são interessantes de se [re]descobrir.
-Mas acho que na verdade seria: gostar e re-conhecer.
-É!
- O que quero agora é continuar meu caso de amor com a vida.
- E o que é a tua vida?
- Arte! Puramente arte..
- Arte transforma, alimenta, engrandece.
-Arte tira o sono, faz viver de verdade.
- Do que mais você precisa?
- Alguém que seja arte.
-O que é ser arte?
-Completar ou que se complete com minha arte.
- Você é uma arte. E arte é mistério.
-Mistério!
-Isso te assusta?
-Me fascina!
-Eu acho que eu sou um pouco imprevisível, sabia? Gosto de declarações inesperadas, de falar tudo o que eu sinto e pronto, não me importar com as conseqüências. Gosto de mudanças repentinas .Troco o duvidoso pelo certo.
-Você descobriu a janela aqui do quarto, faz entrar luz constantemente!
-Eu sou arte, você é arte. Essa é a nossa afinidade, então as coisas florescem naturalmente. Iluminam.
-Afinados.Mesma freqüência,sintonia. É isso!
- Música, espessura, abstração. Sei lá o que a gente é,eu sei que a gente procura ser, sempre.
-Percebe como a gente se importa tanto com isso ,em ser? Vejo tanta gente nem aí pra isso,não sei como conseguem.Me aflige a idéia de não estar sendo. Preciso ser verbo.
-Eu preciso ser.Verbo, substantivo, adjetivo é tudo refém de um contexto maior.Ser já é tudo.
- Somos poesia livre .
-Isso! Versos livres,que sentem necessidade de ser livres. Sem rima, métrica...
-Desregrados..
-Apenas palavras soltas em busca de sentido.Eu sou samba.
-Eu sou jazz.Moro no improviso.
-Eu moro na liberdade de criar e recriar.
-Não aceito a idéia de passar a vida cantando uma única canção, abraçando sempre o mesmo hino! Gosto de cantar sobre ela, mutável.
-Chico diz que a vida é boa pra quem sabe cantar. Eu acredito.
-Por isso digo que não aceito cantar sempre a mesma canção.
-Não deixa de cantar, nunca.
-E você?
-Eu sambo. O mundo pára, gira e eu sambo. Desatino e sambo. Rodopio e me encontro.
-É isso que fazemos: cantamos e dançamos. E é isso que importa! Assim nós transformamos nosso ser em algo mais, num ritmo alucinado e desesperado, desritimado, ansioso por ser.
Somos.
-Somos.

* Texto com André Souza
Ao som de uma melodia silenciosa.

7 comentários:

André Souza disse...

E é só isso que importa beibe, agora mais ainda, somos mais!

GUi disse...

"... Me sinto atrás de um muro de Berlim,sozinho. ..."

Porque razão será que isso nos acontece? A felicidade larga seus filhos soltos pela vida à fora e noite adentro. Mas nós queremos saída! Abusar da vida, viver a noite, desmentido o amor e a verdade, sem se importar com o que seremos, desde que nós realmente queremos ser. Nós somos livres. Não haverá mais muros para nós e iremos cantar a noite inteira, chamando um outro dia, um novo dia! Nunca iremos parar de cantar, se cantarmos juntos.

Tiago Júlio disse...

Caramba, esse texto é de uma intensidade assustadora.
Tanta poesia, e abstração, e delírios, desconexos, irracionalidade, subjetividade... Tanto de tanto!
E é tão difícil chegar ao tanto...
E ficou de uma leveza penetrante! Tocante, inspirador.

Preciso lê-lo mais algumas vezes em horas diferentes pra absorver melhor cada linha e o que tem atrás de cada linha.
Mas consegui ouvir a melodia silenciosa também, acho que isso já é de grande valia. :)


Parabéns a você e ao seu amigo.

Anônimo disse...

Muito show seu blog! Coloquei lá nos meus favoritos porque gostei mesmo. Gostei da parte que vc se recicla de madrugada, sou assim também, justamente pelo medo de ser a mesma todos os dias!

Thaís
www.pensamentoproibido.zip.net

Maria Fernanda disse...

Porque eu tenho medo de ser a mesma todos os dias, de cair na rotina insuportável do ser.

- perfeito.

Mary West disse...

Tudo mundo bem que quer mesmo as vezes ter estes dons de médium, seria extramamente válido descobrir o que esconde a mente de certas pessoas.

disse...

"O amor quebra muros"? Não sei, mas ele contrói mundos com certeza, justamente quando se passa a pensar como o todos, como o "somos".

Bjo