16.4.09

Não era uma imagem, algo que alguém com uma máquina qualquer capturou de um instante e pronto. Preste bem atenção a essa palavra: instante. Consegue enxergar o sabor, a preciosidade que tem em mãos? Pois bem, ele a dizia que uma imagem vale mais do que mil palavras, meu Deus, como a soava de forma paradoxal! Como ele, justo ele sensível como se julgava, não conseguia enxergar o texto que pulava daquele conjunto de coisas da qual titulou de “imagem”? Porque entenda: desde o começo simplificá-la a um substantivo já é reduzir sua cota de magia, aquilo era, ou melhor, sempre conterá uma gama de sensações minhas, tuas, do autor, misturado a uma informação que invade em sentidos variados a alma e, de lá, salta aos olhos em texto gritante. Ah, cheguei ao caminho mais delicado: as palavras. Faço-me entender: palavra é coisa que te pega pela mão, leva a um cantinho e diz: “mora aqui”. Ela não te oferece comida, roupa lavada e nem moradia estável, tira a tua paz porque vez ou outra revira teu estômago, com as tais ideias brotando. É uma questão de escolha, ou não. De amor, ou não. De sempre, ou não. Aqui, ali ou lá em baixo, as palavras chegam, encontram motivo e saltam até você. Ora, não venha me dizer que gestos, sentimentos não são palavras, nunca ouviu falar em palavra-sólida, palavra-líquida?
Explico melhor: o teu “ oi” trouxe, naquela fração de segundos, toda a coletânea de palavras possíveis para traduzir querer, até porque o teu simples oi veio acompanhado de um texto silencioso, mas completamente visível a olho nu. Mesmo na ausência, há presença. Não, eu não passei na fila celestial de “olhos especiais”, muito menos falo asneiras, se não consegue enxergar, se trata a fotografia, a arte visual, palpável como mera imagem, dispense minhas palavras, elas serão vãs.
Preciso que entenda o poder do instante, de uma hora para outra, parte da realidade é capturada, revela-se em cores e nos joga um mundo de interpretações, conceitos, sensações: informações demais a serem digeridas por um simples “passar de olhos”, como se fala por aí. O texto brota desse instante, esse, o próximo, em que as ideias estão fervendo, o estômago revirando-se – não sabia que as palavras escondem-se nas entranhas? Ora! Por favor, não faz essa cara de espanto - e te fazem entender, de acordo com a vivência individual (a arte é plurissignificativa, meu amigo, as palavras não poderiam, por sua vez, deixar de ser), que sempre há mais. Repito: sempre há mais. Percebe a grandeza das minhas colocações? É que meu maior medo é permitir que meus olhos enxerguem o trivial, por isso, planto textos em mim, em diversas formas, para não deixar faltar alimento no período de escassez.
Foque isso: sempre há mais. E lembre-se, só use o ponto final quando necessário...

10 comentários:

...loucos apontamentos disse...

"simplificá-la a um substantivo já é reduzir sua cota de magia"

O grande desafio do Autor.

"Faço-me entender: palavra é coisa que te pega pela mão, leva a um cantinho e diz: “mora aqui”."

Precisa falar mais algo?

Se precisar é isso:

"E lembre-se, só use o ponto final quando necessário..."

Mt bom.

Fleur Anonyme disse...

"Frase que é frase termina com um ponto. No máximo..."

Alice Ruiz

Sê original! Ou usa as referências.

Erica Maria disse...

Linda,

Já estava a sentir saudades suas!

Lindo texto!

Bjos em teu coração!

André Luiz disse...

tu consegue capturar o instante que está sempre fugindo, coisa rara, agora mesmo enquanto te escrevo o instante está aqui.. porque você está em pensamento.

Salve Jorge disse...

Reticências
È claro
Algo tão raro
Deve continuar
Então paciência
O tempo há de ter clemência
E doravante
Até o instante
Há de se congelar...

Peter disse...

Um instante de inspiração e suspiro numa sexta-feira sem graça.
Obrigado por isto.

Gabriela Magnani disse...

Instantes. Coisas pequenas, mas muito preciosas.

Leila Saads disse...

Fifcou ótima essa meta-imagem!

=*

Juliano disse...

Parabéns, muiiiito lindo texto.

Hosana Lemos disse...

"Mesmo na ausência, há presença."

..mesmo sem a presença, há as lembranças, os cheiros, as vontades!

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belíssimo texto.