22.5.09

2 am

Tá travado aqui na garganta, nem desce e nem sai. É uma sensação meio entorpecente, parece um porre de uma droga de sexta qualidade. Tem um detalhe terrível bem no meio dessa sensação de embriaguez: os meus passos deixam de acompanhar o fino traço amarelo do meio-fio. Termino andando bêbada de verdades tuas e, ainda por cima, por um caminho torto, em plena segunda-feira. No entanto, eu não me importo com você. É, eu não me importo, juro. És fraco, não condiz com o perfil de quem dirige um fusca verde, muito menos sai por aí. Sabe, agonia. Agonia de você, dessa falta de ar na garganta, desse texto que não sai, emperra entre as letras. Eu estou assim depois de você, emperrada, tentando, o tempo todo, ultrapassar teus limites, tuas aventuras. Mas, eu não me importo.
É uma coisa muito mais minha do que tua, é um limiar transparente entre minhas vontades e tuas verdades, minhas sensações e as tuas loucuras ácidas. Tudo se mistura, tudo me entorpece, tudo me faz fechar os olhos e deixar as letras fluírem, para não perder a calma, para não perder a essência. Engraçado, falas tanto de poesia e amor e terminas por salpicar em mim dúzias e mais dúzias de rabiscos, promessas e beijos, mas, quando a madrugada insiste em virar dia, quando o sol manda nossa lua descansar, a realidade bate na porta do quarto e puxa o lençol da cama, que na noite anterior, foi palco de sonhos, aflições e versos. Nosso tempo de meia-vida equivale a toda a quantidade de paixão que as nossas veias puderem suportar, é um ad infinitum ao quadrado, uma necessidade de ser algo. A gente se mistura, se realça, mas no fundo ninguém se importa. Há, ali, no conjunto representado por nossos corpos, uma tentativa insana de desconstruir teorias, simpatias, todos aqueles desastres de amor que foram invadindo cada pedaço, descosturando justamente o fio invisível que nos ligava a qualquer outra coisa, qualquer outra pessoa. Você não se importa. Eu me importo, mas não com você. Você se importa com você. Você, eu. Se importa em me emprestar teu isqueiro? Ando com essa maniazinha de fumar, deve ser dos dias que fiquei a te decorar, a entender que fumaça combinava com os contos que dizias para eu ler e ainda caia bem com o jazz. Mentira, sempre tive vontade de fumar, você apenas incentivou o meu lado que esperava fumaça. Os livros são vício e o jazz é aquela coisa de poesia rouca, combina comigo. Eras um mero figurante nisso tudo, apenas mais uma pessoa com gosto afinado, cheio de pose com um carlton na mão esquerda. Não sei por que te digo isso, não sei por que revivo essa história que mais é uma gangorra, que sai da minha cabeça e vai se transformando, se transformando, ganhando corpo e eu nem sei onde chega. Nunca soube bem de caminhos, só se tinha meio-fio. Fico imaginando a tua reação ao se deparar com essas palavras toda amontoadinhas a tua espera, deve doer. Mas o que não dói nos tempos de hoje? E tu, poeta, deves estar acostumado com o ir e vir da vida, essa coisa louca que toma a gente e ninguém sabe se a ressaca vem ou não no outro dia. Ai, nem sei mais o que eu estou falando, esse Martini fez efeito, esse cigarro contribuiu e a madrugada me espera. Vou sair por aí e tentar vencer mais uma de tuas histórias mentirosas e sem sentido que me encantam.
Mas, eu não me importo. Você se importa?

11 comentários:

Jaya disse...

Esse desimportar tão... importante. A estrada que a gente faz do outro, e nem sabe como caminhar. Os vícios. A maneira entorpecente de lidar com as palavras.

Ah, Clara, tuas letras me embriagam, isso sim. E toca jazz, e eu sinto cheiro de fumaça, o gosto do martini, e tudo isso sem precisar ser. Apenas com tua permissão.

Queria saber do poeta, ao ler-te.

Beijo, moça.

P.S.: Precisamos e compartilharemos, sim? (:

André Luiz disse...

'Veja, os meus cabelos estão molhados, caminhei horas pela chuva querendo e não querendo procurar você..'

Ruberto Palazo disse...

Quem disse que as histórias precisar ser reais para virar poesia? Vivemos aquilo que queremos viver, a ficção tbm é otima para nossos pulmoes viciados da fumaça cotidiana e querendo novas fumaças coloridas na nossa vida...nao?rss

Beijos

Carla P.S. disse...

Se entorpecer e escrever a respeito? Sim, nós sabemos: tu se importa. Ele também, do jeito inconsequente dele, tu sabe, pulsão de morte. Aquela coisa de se matar aos pouquinhos, silenciosamente, sorrateiramente.
Poetas, poetas...Apaixonantes, apaixonados, inconsequentes. Que raiva? Que nada, é pura magia.
Segue teu rumo, procura a pulsão, a propulsão, o latente de vida que permeia teu coração (tua família, e teus amigos).E literatura...Tá?
Beijos, e um café. Amargo.

...loucos apontamentos disse...

"para não perder a calma, para não perder a essência."

e se escreve...

desabafo.

Jaya disse...

Vomitei, lá.

Amém!

disse...

E quem se importa?

Dando amor a quem merece...

Carla disse...

às vezes eu tenho a impressão que você viveu vinte histórias e escreveu dez livros.

Carla P.S. disse...

É esse tipo de texto que eu gosto de ler, e de digitar. Saem da alma, saem do coração, paixões e sentimentos tão incrustados na alma que tudo faz sentido, ao menos na hora. O que fazer senão expelir em palavras a raiva do não-ter? Viramos poetas, nós também. E damos prazer a quem nos lê.
Um café, por hoje. Faz frio e chove aqui.

Thaís Nóbrega disse...

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Gabriele Fidalgo disse...

adorei, adorei, adorei, Clara!
me lembrou muito uns vômitos literários de uns tempos passados!

gosto muito do que você escreve.
É muito essa sensação de 'asas abertas'.

beijos!