29.11.09

Ovelha negra da família

As tradições são danadas, principalmente para as pessoas do sexo feminino. É preciso ser boa filha, obedecer aos pais, cuidar do lar, não ter muitas ambições ( não é possível viajar e nem trabalhar muito, pois a casa e os filhos precisam de ordem e toque feminino, olha lá hein?), ter filhos inteligentes e saudáveis , um trabalho para poder abrir a boca e dizer que não é sustentada pelo marido ( não importa se, aos domingos, ele fique sentado no sofá enquanto você, mulher do século 21, lava todos os copos e pratos que o “coitado que trabalha a semana inteira” utilizou) e ainda precisa estar, no mínimo, aparentável.

Ao longo das gerações, as mulheres foram acumulando funções e, instintivamente, foram repassando para as crias. Hoje, um típico domingo familiar, ainda é possível observar a insistência das tias no amor cindinerelesco, na quantidade de filhos, na idade de casar, na condição ainda inferior da mulher em relação ao marido. E quando você não se enquadra nesses padrões a coisa fica feia, saem frases do tipo: “ você ainda não se apaixonou, não amou de verdade”, “quem ama , fica cego”, como se amar fosse aceitar tudo o que o outro faz e balançar, sorrindo, a cabeça. E claro, deixemos bem claro, que o maior sonho de todas ali presentes era um casamento bem sucedido, mesmo que dentro desse casamento, apenas houvesse espaço para cuidar dos filhos e deixar a dúvida existencial adentrar na sua cabeça: pinto as paredes de branco ou gelo?


Fugir de tais padrões é entrar em guerra nos dias de domingo. Ficar calada quando se tenta padronizar todo mundo é um desafio enorme para uma ariana, contudo tento lembrar de alguma música, ocupar os ouvidos para evitar o conflito, afinal, cada um é dono de suas escolhas e sabe do tamanho do seu mundo. É difícil. Ainda mais quando são as próprias mulheres que julgam suas escolhas e tentam, de qualquer forma, reintroduzir você no bando. Não acordo cedo, não sei lavar roupa, nem arrumar a casa. Cozinho apenas o que gosto e olhe lá. Minha avó desistiu de me ensinar a costurar porque percebeu que eu não tenho e nunca tive dotes para corte e costura. Artesanato também não. Minha paciência para crianças é pequena, quando não falam e nenhuma para as que falam. Pré-adolescentes me irritam. Gasto horrores em roupas, sapatos, cremes e comida de boa qualidade.Meu controle é mínimo e a loucura é muita.Li Roberto Freire cedo demais para entender que um amor não se completa nunca, ele é enquanto. Minha carreira profissional está em primeiro lugar e dela não abro mão. Não nasci, definitivamente, para Amélia, para desespero das minhas tias.


Não tenho nada contra casamentos, cada um case onde quer e com quem quiser. Ainda desejo um seja feliz, sincero. Mas não pretendo juntar todas as minhas energias em busca de um – acreditem, isso ainda existe. O mais engraçado é que quando você não concorda, é revolta, é a que vai casar primeiro, a que nunca se apaixonou de verdade. Já me apaixonei, já amei e quero amar mais e muito, mas não preciso fazer da minha vida inteira esse amor. Não preciso fechar todas as portas para despejar todos os meus desejos, sonhos, conquistas nas costas de alguém enquanto espero que ele me traga um tiquinho de felicidade, junto com o pão, na hora do jantar. Se eu quero ser feliz, preciso me fazer feliz, preciso trabalhar a minha felicidade. Só depois, compartilhar. Não acredito em contos de fadas e sempre é uma palavra que me dá medo. Faço questão de abrir todas as portas, escancará-las para ter o prazer de falar, mais tarde, que não sou igual a elas, não me contento com pouco e nunca estou satisfeita. Eu nunca estou satisfeita, isso é uma delícia.


Filhos? Prefiro um pós-doutorado cheio de teorias da comunicação e análises do discurso e um passaporte lotado de carimbos. Caso venha ter um, dois, quinze, sabem-se lá quantos é porque já realizei quase todas as minhas vontades e a vida já me raptou várias vezes. Meu corpo não é uma máquina geradora de crianças, como elas enxergam. Ele é meu, a decisão de ter ou não um filho é minha e não da sociedade e não dessas tradições que as próprias mulheres insistem em carregar.


Vou continuar achando o ciúme um veneno em qualquer relacionamento, ainda tenho sede de conhecimento científico, me devo respeito e por isso não transforomo a minha vida em algo ou em alguém e comportamento que visem a moral e os bons costumes me dão ânsia de vômito. Você vai continuar dizendo que cedo ou tarde termino ingressando no teu clube de boas mulheres e aprendo o discurso direitinho para ensinar as milhas filhas, sobrinhas. Um discurso vazio, pequeno e que não preenche nem um terço da minha menor ânsia. Eu abri uma porta e perdi a chave, aquela mesma porta que você teve medo de entrar.
Entenda: o problema não está comigo e sim em você que não enxerga que a vida vai além, muito além, do teu fogão.

6 comentários:

Gabriele Fidalgo disse...

Clara,
no primeiro parágrafo já pensei: ela também está dançando em cima da mesa. E então recebi o alerta do comentário que você me deixou. Dizendo que, é claro, dança.

Seria fácil concordar com você porque, para quem só vê o lado superficial da coisa, parece feminismo. Mas a verdade é que eu me vi enchendo a boca para repetir as palavras dos teus textos para as minhas primas. A maioria começou a namorar [veja bem, único namorado], aos 15 e com o tal predestinado continua até hoje. O que me dá calafrios só de pensar. Não viver outras coisas, não ir além do fogão e dos olhos dos namorados que as desejam como caipiras na roça.

Tenho a intenção de ter um filho um dia. Um. Para ser uma mãe participativa e fazer algumas coisas diferentes das que eu vejo por aí. Mas depois de me estabelecer profissionalmente. Do contrário, estaria agindo como muitas mães, que não refletem e depois passam a vida culpando os filhos por um destino diferente do que queriam.

Penso muito como você e foi uma delícia ler esse texto.

Um beijo

Ana disse...

Olhá eu por aqui.
Pois é, esse seu texto me fez pensar. Fui criada no modo "cinderela" e caipira, onde as mulheres cuidam da casa, dos filhos e vivem a vida do marido. O mundo mudou muito, como você disse, as mulheres têm muitas funções e continuam sendo puxadas pelo machismo da sociedade. Concordo com você em parte...
Porém, continuo achando que devemos saber cuidar de casa, da roupa e cozinhar, não por ninguém, mas por nós, que moramos fora e com certeza em algum momento da vida não teremos empregadas ou mães para fazerem isso por nós. Como os homens também devem saber...quando moramos fora, esses costumes "domésticos" são uma prioridade e não conseguimos fugir dele. Acredito que isso seja essencial pro crescimento pessoal de qualquer pessoa...homem ou mulher...saber se virar. Não acho que seja machismo, quando moramos fora somos todos iguais na "odisseia de morar sozinhos".
Quanto ao amor...ô coisa complicada. Somos bombardeados desde pequenos com a ideia de que só seremos felizes quando amarmos alguém e isso é muito injusto...esquecemos de nós mesmos.
Vamos fazer nossos pós-doutorados e viajar muito!
^^
Beijo, Clara.

Anônimo disse...

você vai fazer tudo o que escreveu aqui, e mais...

adoro ler o teu blógue.

anita

Raedja Torres Guimarães disse...

"As tradições são danadas, principalmente para as pessoas do sexo feminino..." O pior é constatar que o machismo não reside na cabeça masculina, mas na feminina... até por que, o homem que hoje peida no sofá num dia de domingo, perguntando se tá pronto o almoço, foi o menino de ontem, educado por uma(s) MULHER(ES)!

Isso para mim é forte demais...

Quanto ao segundo parágrafo, onde fala das "nossas tias" e até mães... enfim... parece que existe um complô para a formação de novas "mulheres sistematizadas".. afinal, quem perpetuaria os comentários sobre "as 100 verdades femininas insubstituíveis"... ou seria, uma forma egoísta de não ver uma super-heroína, já que nenhuma dantes assim o foi; E uma exceção seria demais para o egoísmo público. Logicamente, essas são todas algumas suposições alegóricamente sarcásticas, perante este padrão de comportamento adulto feminino, que insiste em sobreviver no séc. XXI, no qual eu sou mais uma náufraga cansada de nadar.

Também já amei, já namorei, tive um relacionamento de mais de dois anos. Foram minhas primeiras experiências, e nela eu aprendi na prática o que é se anular, perder identidade e até a famosa expressão “jogar todas suas projeções no outro”... enfim... hj eu percebo, o quanto eles me fizeram bem! Já que aprendi direitinho a filosofia do “negócio”... rsrs...

Hj sou minha própria inspiração. E todas as vezes, olho para trás e percebo que sou uma versão aprimorada do que fui antes.. o mesmo ocorre com meus namorados... um mais intelectual e bonito do que o outro.. rsrsrs... só tenho a agradecer a lei da evolução, que faz da impermanência do estado das coisas, algo infinitamente virtuoso.

Sua postagem me fez lembrar da minha primeira postagem, em um antigo blog... vai o link, se tiveres tempo....

http://raedjaguimaraes.spaces.live.com/blog/cns!CA882EF7196B035F!191.entry

Finalmente, adorei suas postagens, viajei em minhas concepções através de tuas palavras, e eu só tenho a agradecer a sorte deste planeta, em abrigar “garotas” e “mulheres” tão significantes!

Abraço!

leila saads disse...

Não é apenas para a ariana que se faz difícil um dia de domingo, o nome dessa inquietação, dessa ponta de infelicidade que bate sempre que se vê um homem sentado esperando uma mulher servi-lo, sempre que se vê salões de beleza lotados de mulheres que acham que cuidar bem do amor é estar sempre bonita para o homem, o nome disso é consciência. E cada vez que ela se mostra mais nítida, mais forte, cada vez que me dedico mais a pesquisar sobre gênero e feminismo, essa inuietação e essa tristeza aumentam. Mas não faz mal, sinto-me cada dia mais livre, embora tantas vezes mais pesada.

Clarissa Cor disse...

sabe, venho enfrentando choques internos intensos sobre essas questões adquiridas que aniquilam a natureza de quem não se enquadra no perfil conto de fadas. To descobrindo... e teu texto despertou ainda mais minha coragem. Obrigada, Clara!