11.7.08

Amantes Constantes

"Ainda sobre o filme...

Não sei se você tá sentindo a mesma coisa que eu: tou com um nó aqui dentro, sabe? E ele parece estar tão apertado que nem conseguir chorar eu consigo, por que as lágrimas, as lágrimas parecem estar amarradas. Elas nao descem. Ficam só marejando os olhos - como se eles tivessem obrigação de ser marinhos.Sabe como é?Ah!E quando parece que elas vão, finalmente, descer, rolar, cair, surge uma dor lá dentro. Agora é lá dentro mesmo. Bem dentro.E sabe o que chega a ser cômico nisso tudo? Por que, afinal, isso tudo soa quase como uma tragédia, mas, aí, parece que tudo isso acontece por que tem uma cordinha, lá dentro, que parece estar no seu limite. E que não cede de jeito nenhum. Agora, veja bem: ela está constantemente no seu limite. é uma coisa tão doida mas tão certa ao mesmo tempo: ela tá no seu peso/tamanho/espessura normal, mas esse normal, em contrapartida, é o máximo dela, pois, como já foi colocado anteriormente, ela está constantemente no seu limite.
Ou seja, o normal é o limite. O excessivo. O sempre mais.Daí, vem a dor delas estarem ficando pesadas e não sairem do lugar. Do tentar cair, cair e não encontrar abismo inimaginável pra alcançar.E, quanto mais pesa, mais dói lá dentro.Aí só resta aquela velha sensação de toda hora estar sendo sugada pra dentro."


Elas estão mesmo amarradas. Amarram-se às entranhas com bastante força. Sair, nesse momento, significa expor todo esse inconformismo, a tragédia que nos faz rir desesperadamente. A sede que não passa. Colocar isso na margem do visível, do palpável é perigoso, pois requer mudanças, chutes na cadeira. Nosso corpo não está preparado para o desequilíbrio, o estado desorganizado das coisas e dos segundos.
E sabe por que é lá dentro, bem lá dentro? Por que está no DNA. Porque você, eu e mais um pouquinho de gente nascemos pré-destinados a um mundo sem fronteiras, onde a “dor da perda” – a mesma que fez o menino ser comido e definhado por dentro – perde a vez. Somos moldurados para pinturas cubistas, surrealistas, que detém a realidade nas mãos e preza pelo seu pincel.
São esses mesmos olhos marinhos que exemplificam bem o nosso estado: estamos sempre em busca de espaço, de certezas, de contradições, algo para completar essa falta imensa e necessária e viciante. Se os olhos deixarem de ser marinhos e virarem apenas abrigo das lágrimas deixamos de enxergar nosso próprio nariz e, como diz Zé Celso, achar o nariz é condição sine qua non da existência.
Resumindo, elas são condicionadas a não descer, rolar, cair. Existem para nos manter perceptíveis a fatos, a filmes, a paradoxos. Ponto.
Quanto aos tais e temidos limites (minhas pernas tremem e ainda me sinto confusa na frente da linha transparente de chegada e partida), observe: essa corda de capacidade elástica máxima assombra e te desafia em tons agudíssimos. O “excessivo”, o “sempre mais” é à beira do abismo ( pra quem sabe voar, os segundos iniciais são glorificantes, mas, no final, todos nós acabamos no chão). Caímos em um buraco sem início, meio ou fim, nem mesmo algum hipérbato para aliviar a alma. É excessivo, é azedo e ao mesmo tempo salgado. Pesam as pernas, as lágrimas, os ombros. A corda tenta arrebentar, mas a tensão contrária não permite nenhum movimento. Chegamos à inércia, princípio fundamental de todos os seres vivos e mortos. Dói, suga, amargura a alma, mareja os olhos, estremece o peito. Revoluções inconscientes e diárias nos afligem, obriga ao movimento.
E seguimos assim amarrados, sem nem saber por que, a essas lacunas, a esse pesar constante.
Presos à constantes.

8 comentários:

thai disse...

http://www.youtube.com/watch?v=-QKEGGfQgu4&feature=related

Tiago Júlio disse...

''É um estado de espírito, uma angústia relapsa, falta profunda, um vazio que forma de maneira única: pois são feitas de nada, as bases que sustentam o que camuflamos e disfarçamos com o esquecimento do que somos, uma indiferença profunda. Não pela falta de ação, mas pelos pensamentos que desenterram a nossa primeira camada, uma lembrança quase amarga. A ausência e a falta mais profunda que temos, de não sentir.
Só resta ser, e só um ser, um ser sendo só, é pouca coisa mais que uma ausência.''


No fim das contas, a gente é opaco. Quando se começa a investigar o porquê dos sentires vemos que a maioria deles não são tão grandes assim.
Os que são grandes... Bom, esses me machucaram.

Quem sabe o bêbado esteja longe demais do que ele mais quer. Bêbados tem crises de abstinência. :)


Gostei de ti.

Juliana.Campos disse...

Nossa sem saber o que dizer!
[...]
O post tá simplemente lindo!
Mexeu cmg!

Larissa Tezolin disse...

Olá! Estou visitando blogs novos e o seu e simplismente espetacular.Sem palavras esse seu post é lindo.
"Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. (Drummond)"

menina-chuva disse...

comentei na foto passada e va se fuder por esse post (o passado), fazer chorar é demais

imnotinsane disse...

Lindooooo ***

Polly disse...

Nossa!!
Acabo de conhecer seu blog!!
E estou encantada com esse post, me sinto assim nesse exato instante!!
vc verbalizou algo q nao consegui!!
obrigada por isso...
vou te linkar no meu blog, ok??
um abraço carinhoso!!

Mary West disse...

Lindo cara, muito mesmo, de tocar a alma e acordar um coração de pedra. Pow, Louis Garrel é rei. ;)