6.3.09

Carta a um (des)conhecido

Moço,


Conseguistes transformar a raiva em tristeza. Tristeza por ver a poesia se esvaindo, as lembranças se perdendo e o tanto de amor seguindo estrada.

Se, um dia, eu fui espera e espetáculo, qual o motivo para me ver murchando, perdendo o cheiro? Sabe, moço, há perguntas por aqui que giram, giram e não chega nenhuma resposta para acompanhá-las na valsa. É como se tudo o que estivesse guardado como lembrança fosse uma mera ilusão de dias, um simples encontro, aquelas coisas que acontecem, mas que a gente sabe que amanhã não vai lembrar.

Apesar das tuas letras cortantes, faço questão de preservar, aqui dentro, em forma de flor, teu abraço, que sempre foi ninho. É, moço, nunca precisei conhecer a tua casa porque o teu abraço já era moradia, entende? E lá o sol batia, os pássaros cantavam, as flores cresciam.

Mas, sabe, seu moço, quando as coisas vão perdendo o sentido e machucando, eu prefiro me afastar. Sou leve demais para carregar frustrações alheias. Não preciso de platéia, não preciso que me peças para descer ao chão e nem caprichar no texto, pois não és mais poesia, não és mais capaz de tirar o fôlego, virar arte – se me conheces realmente bem, sabes da minha necessidade vital de arte.

Ah, apesar de gostares bastante dos girassóis de Van Gogh ( e realmente são belíssimos) ainda vou de colorido.Não importam tuas teorias sobre definições e se sabes quais são as minhas cores,muito menos se me achas a tal Rosa Amarela. Deixar de rir quando dizes que preciso ir para as ruas é impossível, mas adianto um perdão pela falta de respeito ao teu texto tão complexo. Ô, seu moço, às vezes os olhos enganam, enxergam pouco ou muito demais, nunca se sabe. Se me conhecesses bem, como dizes, saberias que os meus pés andam por aí sambando, frevando, bem no meio da rua. E que o salto é para situações para delimitar versos, colocar a tão falada métrica. Me poupe de frases sem sentido, de declarações às avessas.

E como soa pobre, moço, quando dizes que o teu amor é um só. Muda, evolui, cresce. A mesmice cansa e não tem andorinha que resista. Deve ser por isso que o nosso não deu certo, tenho medo de ser a mesma todos os dias.

No mais, seu moço, dedique-se a algo que realmente valha à pena. Se nada em mim te encanta, procuras luz por aí. Procura alguém que se enquadre no teu poema, sei lá. Faça um tratado sobre espinhos e discuta com a primeira pessoa que encontrar pela rua, menos comigo. Tua energia é baixinha demais para a minha euforia luminosa. Não, seu moço, de modo algum quero ser pretensiosa e muito menos desdenhar de tuas letras, mas preciso de algo bastante diferente dessa angústia que provocas em mim. Aliás, essa tua mania de se apresentar anonimamente me causa repulsa, confesso.


Acabaste com o que restou da nossa poesia. Por favor, não volte.

12 comentários:

Erica Maria disse...

Mas que texto lindO Clara!

Digno de ter saído de tua alma mesmo!

Bjs lindaaaa :)

Leandro BLuz disse...

Muito bom...

o "Moço" foi o único que perdeu!

beijos

kátia disse...

Que texto lindo!
Que pena moço, você perdeu!

Tainá Facó disse...

QUE TEXTO MARAVILHOSO!

Narradora disse...

Bonito adeus.
Beijo.
PS: "Pedala Robinho"...rs

Leila Saads disse...

"Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso"
Chico Buarque

Quando o coração acalma o bom volta aos olhos...

=*

Gabriela Magnani disse...

Lindo texto.

Anônimo disse...

esse moço,não sabe a bela Clar que ele perdeu.Outra Claridade dessa,ele nunca vai encontrar.bjs

Asas, sonhos e coração... disse...

tu é ídola demais!

Amo tanto!

Anônimo disse...

Moça, devo dizer-te que a minha alma concorda secretamente com tudo o que decerto irá se passar, embora ela queira com isso apenas mostrar que, apesar de desaprovar o que está para acontecer, prefere permanecer neutra. Oh, minha alma, tão insustentavelmente leve. Que Kundera a abençôe.

Ó, doce moça, desculpe-me pela bagunça que vês aqui, acontece que, depois de tuas palavras, pus-me a vasculhar, em vão, todos os cômodos de meus sentimentos em busca de lembranças tuas. Sem sucesso, terminei aqui, entregue ao cansaço e de mãos vazias. Moça, descobri que eu inventei as lembraças que acreditava serem tuas. Foram tantas lembranças inventadas e só então eu percebi que estas eram ilusórias, pois foram sendo desinventadas tão amargamente no decorrer de nossas cartas. Ah, moça querida, tenho certeza de que as lembranças que tens de mim são meras ilusões também, inventaste-me. "Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas".

Depois de ausentar-me do recinto, já me encontrava no interior do trem, último vagão, como de costume, quando desci e tomei o outro trem de volta [necessidade de partir]. As pernas tremem até agora, moça, e cá estou eu, mais uma vez ofegante, olhando tudo ao redor. Que bagunça eu fiz, e nem uma lembrança sequer.

Olhei bem ao redor, moça, não tinha reparado ainda nos girassóis. Oh, como são belos, até murchos o são. E exalam um perfume de dar inveja em qualquer outra flor. Agradeço, moça, pelos girassóis, mas peço desculpas por não poder me dedicar exclusivamente a eles, tenho tantas outras flores pra cuidar também. Cuidarei de todas, inclusive dos girassóis, porém sem exclusividades. "E que é amar? A estranha dor de estilhaçar a alma em carinho... É colher ao acaso alguma flor para despetalá-la no caminho. E que resta depois de tantos ais? A saudade? Talvez...Ó alma enganada, de ti e da flor não resta quase nada: um punhado de pétalas na estrada, um perfume nos dedos... - Nada mais".

Moça, não digas que conheces o meu abraço. O que achas que conheces não passa de uma camisa de botão de braços abertos no varal. O abraço, este não tiveste o prazer de conhecer. Ele não é moradia, nem é ninho, é jardim. Lá o sol bate, os pássaros cantas e as flores crescem e, decerto, todos declamam versos em todas as alturas, sem necessidade de saltos. Mas, inevitavelmente, nos dias chuvosos o sol não aquece tanto, como de costume.

Insisto que sejas poesia, só assim serás capaz de compreender quem é a Rosa Amarela, e tantas outras flores. Talvez compreendas também que os melhores rios preferem correr na França, moça, e que Neruda ainda não descobriu o porque de tudo isso, mas Augusto dos Anjos sabe disso tudo mais do que o Eclesiastes.

Nunca disse que te conhecia bem, apenas sei de tuas cores, e reconheço que é muito pouco o que sei. Disseste-me que sambas e frevas no meio da rua, e com isso caímos de novo no poço das auto-afirmações. "Pára de ondular, agora", bela moça. Gritas que sambas "a fim de que tua beleza, teu langor, tua elegância, reinem sobre as cobras não-corais"?

Estas cartas as quais dedico alguns minutos do meu precioso tempo, ó triste moça, valem muito à pena, para mim e para ti. Tu me vales à pena, encantas-me, e todo e qualquer encantamento me é válido. És minha paixão. "É verdade que a tristeza é larga e estreita a melancolia?" Não a quero triste, saibas, quero te ver crescer.

Porque deixas a porta entreaberta, moça? Não sabes o quão isso é demasiado perigoso? "A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam. Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. Era dividida em metades diferentes uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. Nenhuma das duas era totalmente bela. E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia
".

Quando te perguntei se querias que eu voltasse, me respondeste que não. "um não tão lindo que parecia sim ...
E que entre tantos nãos ... caiu gostoso ... dizendo sim ...
". Cá estou, de volta, porque teu sim chegou aos meus ouvidos.

Por fim, "se você não se atrasar demais, posso te esperar por toda a minha vida".

"A quem engana a Magnólia com sua fragância de limão?" Descobriremos.

Afobório. disse...

olá.

os teus textos são mesmo muito bons.
gostei mesmo.

sorte e luz.

Asas, sonhos e coração... disse...

Nem li o "anonimo" ainda, mas sei q ele nao entendeu o recado huahuauhauha

saudades imensas de ti...
Venho aqui para poder te respirar...

Amo tu!
E não é poko!