29.4.09

Divagações




"chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso."

Caio F.



Existia um muro, daqueles construídos tijolo por tijolo e com muito cimento para garantir a sustentação. A arquitetura era em fórmula de círculo, ou melhor, parecia alguma forma geométrica oval, mal definida. Ali, as pessoas estavam presas em sem próprio mundo; lá fora, o mundo rodava, o que era gelo derretia, quem vivia, morria; até os copos se balançavam diante devido ao terremoto. Parecia àquela Carolina do Chico, sabe? Mas sem uma banda tocando, apenas o caos silencioso de estação mal definida por falta de relógio. Difícil explicar, no entanto sentir ultrapassa o critério de felicidade. É uma ilha no meio de gente, muita gente, isolamento geográfico que só permite a aparição de uma folha em branco, algum objeto que escreva e mais algumas pílulas tarjas preta, mais nada. No meio de tanta gente, tanto texto em uma tela cinematográfica e uns que se dizem amigos: isolamento, vácuo.
Estar a mercê de todas as sensações, de maneira desprotegida, passível a tudo e a nada, prendendo a respiração. O mundo, nesses segundos deixados à caneta, não parou, o filme na tela continua, mas meu único alimento é extravasar, no escuro, essas sensações embaraçosas, esses olhares que dariam belas fotografias. É como correr prendendo a respiração.. Uma hora você cai, não aguenta. E o apertar dos pulmões deixa um gosto ácido de perda. Hoje não se trata de coração, estômago, entranhas, hoje, falo sobre esse ato involuntário de respirar, esse conjunto de alvéolos que param a cada nova crise de escuro, de nem sei o quê.
1, 2, 3, 5 e 8 - parte do roteiro, eu acho. Uma conta que anseia por fim, assim como eu. Um muro que só dá para encostar a cabeça, não apresenta saída, escapatória. São homens com pedras na mão, com a necessidade de livrar-se de uma dor perversa, escandalosa. Uma corrida sem saber onde e nem se chega, um barulho que sai dos dedos mais alto do que deveria. Não se entende, apenas remexe os pulmões, pulando a fase respire/transpire em momentos certos e oportunos. Qualquer coisa sem sentido,que provoca o maior dos sentidos: agonia. Esse mistério que se instala no peito e não deixa as veias transbordarem sangue, poesia. Loucura malvada, azeda, um conto de Caio.
Eu quero escrever linhas e mais linhas, fumar meu cigarro, aproveitar minha madrugada sem muros e fronteiras, algo com sentido, não apenas uma imitação de instintos, calmarias.
Uma única idéia: eu quero dar o fora.
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Vazio.

4 comentários:

On The Rocks disse...

desabafo total.

poetico como os belos textos do caio, ao qual sou fã.

bj

Gabriela Magnani disse...

Te admiro muito!

Ruberto Palazo disse...

Quando sentimos uma confusão como essa vivemos um mix de querer o vazio e a escuridao de um quintal oval e o contato com todos, os sentir a flor da pele e ao mesmo tempo nao sentir nada... Caio é mestre em colocar esses sentimentos tão explicitos e tão sonoros para todos os que já experimentaram sentir... mas insisto, as vezes deixo os sentidos de lado e simplesmente deixo a vida me levar e me mostrar que existem coisas muito além disso tudo....

Beijos

Letícia Gonçalves disse...

Oiiie..eu estava fuçando por aqui na net, e achei seu blog, quero dizer que adorei, e arorei os textos tbm, to te colocando nos meus favoritos tá ? beijos