30.9.07




Lá se vai o solitário palhaço rumo ao infinito. Vai caminhando com sua máscara sem alma, de uma cor que saiu da aquarela faz tempo, desbotada junto com a capa que o cobria. Abstrato e alegórico. Flexível.
A tempestade se aproximava, não basta ser palhaço, não basta ser solitário, não basta desbotar, é fundamental sentir cada gota de chuva entrar pelos poros, perturbar a inércia - a tão querida inércia - que domina as moléculas. O infinito não chega, as pernas lutam contra a voracidade do vento que insiste em carregá-lo não se sabe para onde.
O palhaço é um cortês decadente, um acrobata com dor na coluna. Ele, palhaço, dono do poder de pintar no rosto aquilo que as pessoas escondem no coração, tornou-se apenas um velho nostálgico em meio à tempestade. Patético.
Cadê o sentido de tudo isso? Onde estava o circo? Trapézio? Por que ele tinha que ficar, agarrar-se a esperanças se o que ele queria mesmo era ir embora de vez, andar no meio fio, sem medo?
Tirou a máscara pesada antes que ela grudasse no rosto para sempre, acabando o espetáculo nos próximos minutos. Sangue, ardência. No entanto, incrivelmente a chuva amortecia a dor, de forma surreal, mágica.
Pegou a tinta azul que trazia no bolso, fez um risco, um só. Jogou a capa fora. Abriu, em um gesto bruto, o peito e deu dois passos. A tempestade não havia acabado, lavava todas as células defeituosas de um copo que só seguia os comandos mecânicos de um alguém irreconhecível. Sonhos frágeis. O coração, outrora costurado em vários pontos para não ocupar muito espaço, estava quase saltando do peito. Batia de novo, forte, intenso.
Assim, o palhaço solitário, dobrou a esquina e saiu em rumo ao infinito.



Mas, feliz.

6 comentários:

Gabriele Fidalgo disse...

Clara, na boa, não tô encontrando as palavras pra expressar algo bom o bastante sobre o seu texto!

Tem uma certa tristeza,
dá até para imaginar a solidão do palhaço, e ficou lindo lindo!

=**

thai disse...

preciso fazer isso.
sei que só quando puder sentir todas as protuberâncias da minha pele, do meu coração, eu vou poder soltar o grito que tá guardado aqui dentro.
vou lá ser palhaço

Lais Mouriê disse...

Muito bom!!!! Quero encontrá-lo lá no infinito, sabe?

Amei!

Bjos

Gabriele Fidalgo disse...

Vim aqui ver se tinha postagem nova, e não deu para evitar.
Li de novo esse do palhaço. Adorei!


=**

jamys alexandre disse...

Sempre que leio seus textos não me vejo sozinho.
Pode parecer meio bobo, mas as vezes, penso que sou um de seus personagens.
Abraço!!!

Juliana disse...

Acho que hoje tô mais pra Bobo da Corte.

Belo texto,
suas palavras dançaram...
como as lágrimas da nuvens caindo no peito do palhaço.

Bjo, moça
: ]