17.9.08

Há tempo não passava por aquela rua, estava evitando, de vários modos, me deparar com a realidade. Na segunda, a agenda estava cheia, na terça sufocaram o que restava de poesia. E hoje? Qual seria a desculpa? Procurei pelos cantos tortos do armário e nada encontrei, por isso tive que trazer minha cara à tapa. Sabe, li e reli as tuas acusações cheias de fundamento, minhas formas são mais delicadas mesmo, aprendi isso com o tempo e um longo processo auto-terapêutico, nem sempre encaixam na tua fôrma de desenho firme. Mas isso, agora, não me importa. Já me encontro nesse estágio e a volta é um caminho longo demais. Aqui não consigo me descrever.Luto para transpor aquele muro de meio metro que tanto me amedronta, quem diria, não é mesmo? Tenho medo de desaprender a me trasbordar em fonemas, o medo de sufocar, do algo sem substantivo definido, preso. Dizem que eu preciso é chorar, mas sabe, amor, as lágrimas só chegam a marejar os olhos, é como se elas não tivessem a licença de escorrer pelo meu rosto, elas impuseram limites à gravidade. Não consigo chorar. Sinto aquele aperto no coração, ouço a nossa música e nada. Nada. Mais outro medo: de ser nada. Preciso ter asas, nem que sejam de papelão, como dizia Caio. Preciso parar de precisar e ir além do meu interior, chegar à metrópole. Ah, se soubesses, amor, o que guardo aqui dentro, o que se esconde por trás do meu sorriso. Não sei em que estação eu fiquei parada ou o barco que aportou na margem errada, não sei. Não sei o que te dizer. É impossível tentar traduzir a minha necessidade, entendes agora porque demorei tanto para passar na tal rua?

Fui à praia, abdiquei dos tranqüilizantes e rezei. Tive uma companhia distante: uma mulher repetia silenciosamente algum credo, algum pedido enquanto deixava as ondas do mar baterem em seus pés. Eu apenas fui receber energia. A força das ondas parece impressionante, não é mesmo? Nunca entendi, ao certo, como acontece o mecanismo, para mim, há algo muito mais divino do que físico. Mas voltando, enquanto alguns pingos solitários batiam nas minhas costas nuas, eu fui me comparando ao mar. Talvez eu esteja muito longe de ter “olhos de ressaca”, porém, naquele segundo, eu precisava estar ali apenas para observar que as ondas nem sempre carregam conchas do mar e sargaços. Havia lixo no meio da praia, e como em um ato de reciclagem, ela ia e vinha tentando tornar água clara, mesmo que, visualmente ela estivesse turva. Pensei, repensei. Criei metáforas e explicações um pouco mirabolantes, sem sair do lugar. Voltei anestesiada. É muito estranho eu te contar isso porque você sempre espalhou, ao mundo, a minha espontaneidade, capacidade energética e agora, me apresento, aqui, em frangalhos, em pedaços mal recortados que tentam, quase desesperadamente, montar-se em um quebra-cabeça, virar porta-retrato, parede de arte. Muitas vezes, me escondo por traz da minha face bem cuidada, me drogo desnecessariamente de cigarro. Queria sentar em um bar - onde o que diferencia as pessoas é o grau etílico apenas - e esquecer política, religião e essa dor sufocante que resolveu não pagar aluguel no meu peito e me embriagar, perder a lucidez. Mas o meu senso ridículo de responsabilidade não permite o álcool, não permite dosagens mais altas de tarja pretas e nem das vermelhas. É por isso que as minhas células murcham, porque há uma briga interna e externa contra mim mesma: de um lado há um poço sem fundo e do outro um plano de vôo. Acabo, no final, refém do chão. Não sei, amor, ainda não consigo compreender o que acontece, a trava automática e seu destrave. Só sinto, só peso, só me isolo, minhas revoltas são internas, programadas para não eclodirem em revolução popular, caos. Percebes ainda o conteúdo inexato do meu texto? Encontrasse algum tipo de elemento conector, sentido lógico? É mais ou menos assim o funcionamento das coisas: sempre tendo buscar a essência e raramente encontro. Raramente me encontro. Não sei se é o tempo que não deixa ou eu mesma que tento sempre me desviar da sombra, do reflexo no espelho. Eu sei que soa ridículo sempre culpar o tal do Tempo, mas não me restam argumentos (na verdade, eu evitei buscá-los).
Vou parar por aqui, amor. Minhas palavras estão melancólicas demais e minha alma não permite tal dosagem. Ao mesmo tempo em que da cansei de uma busca interminável, cansei também da espera, cansei de não buscar. Talvez a minha lógica ( ou a falta dela) seja incompreensível, mas isso também não me importa nesse segundo.

Vou indo , querido, atrás de mim.


um dia e muitas coisas,2008.

5 comentários:

Camilinha disse...

ah, nem me fale desse longo caminho de volta. espalhei migalhas por ele e quando era a hora de voltar, você sabe, né?!


beijos daqui...

Ana Cláudia Zumpano disse...

com certeza, muitas coisas para um dia... clara, me vejo tão presente na sua forma de escrita... muito belo, belos sentimentos presentes...
beijos menina ;*

André Souza disse...

Clara.
Pára.
Respira. Inspira.
Vá com calma.
Tu tem coisas bonitas no coração, tem vontade e ânsia de ser. Tem coragem e força pra perceber e sentir.
Pessoas como nós são feitas de momentos. Claro, a vida não é feita de momentos, é algo bem mais que isso. Mas a gente nunca vai andar na linha certa da vida, e esse é nosso segredo, que ainda que dizível, é imperceptível pros olhos comuns.
Pára no meio do caos. Se afoga, se mata, e volta pra casa nova. Novas idéias, novas vontades, novos anseios..sem vontades de infinito. Sabe por que? Porque infinito é pra sempre, e pra sempre, não serve pra gente, tu sabe disso.
Saudades da Clarinha..

Flavinha disse...

Ir atrás de si mesmo é sempre um desafio - nosso "eu" é o ser mais esquivo que podemos encontrar, mas também o mais encantador :)

Beijos, moça.

Sunflower disse...

finalmente alguém que não quer fugir de si. Lindo isso.

mais beijas