28.10.08

A Mayra Meira
Era tarde, ela abria a porta devagar. Ficar tanto tempo na ponta dos pés serviu para disfarçar o barulho de seus passos. Chegou ao quarto. Tinha rompido a barreira do escândalo dos pais ao ver sua cara borrada de maquiagem pouco resistente à água, as roupas molhadas por uma chuva inesperada, a almofada no lugar errado e um desequilíbrio proveniente de doses exageradas de vodca barata.
Há tempo não lembrava do gosto forte do álcool, muito menos a dor nos pés bem colocados no salto fino. Tudo, naquele momento, naquele quarto, se traduzia estranhamente, adentrava em suas fronteiras pouco protegidas, revirava suas certezas tão bem marcadas nas paredes. Pegou um papel na gaveta bagunçada e tentou rabiscar qualquer verso antigo, mas não lembrava de nenhum. As mãos já iam ordenar as palavras para a fôrma dele insuportavelmente doce. Desistiu na segunda linha e na quinta lágrima, nada de voltar ao clichê, as juras ridículas de amor. Ela era dela, cada pedaço programado perfeitamente para si, entendeu? Repita mais uma vez: ela era dela. Comprimidos. Essa mania de respirar através de antidepressivos estava desacostumando-a à realidade e essa entrega as tais pílulas aumentava o tamanho das letras no espelho: covarde. Ficava assim, nesse duelo quase barroco entre a ansiedade espontânea e a programada, uma linha fulgaz entre vida pulsante e latente.
Segundo Kátia, ' Clariceana '

14 comentários:

Leila Saads disse...

Engraçado que desde pequena acreditei que o amor salvava. Hoje, depois de alguns poucos anos de experiência, cada vez percebo mais o poder de destruição que o amor também carrega consigo...

Beijos=*

André Souza disse...

Clarinha, vomitou teu eu mais você, coisa mais linda isso.
E é difícil, essa coisa de se vomitar, não é pra qualquer um. Tem que querer de verdade e não ter vergonha ou medo algum da tua parte que ninguém vê, e tem que ter coragem de se ver de frente, pra dentro.
E isso é lindo, é lindo!
E é essa Clara que eu conheço, intensa, espontânea e pulsante.
Clara é pura coragem!
Você é você.
Beijo minha flor!

'..E amar muito, quando é permitido, deveria modificar uma vida.'

Camila. disse...

''Ela era dela''.
Não de si, agora. Dela, da Borboleta. Só dela, e nada de si só.

Acreditando puerilmente.

Tiago Júlio disse...

Lindo, muito bom mesmo. Meio um auto-elogio, mas eu percebi muito o teor com que escrevo nesse teu texto. :)
Essa fuga da realidade é de im simbolismo tão grande, mas tu consegues dar um ar tão novo... É neo-simbolismo, pronto.

"uma linha fulgaz entre vida pulsante e latente."

Parabéns, menina.

Poeta Urbano disse...

não foi você que me disse pra ficar descalço??

descalce ante seus pés, e deixe levar

e rabiscos, surgem quando se menos espera

afinal, somos só rascunhos mesmo

disse...

Unicap. Só passei pra responder a pergunta. Depois passo para ler o texto e comento.

Bjo

Tu faz jornalismo tb?

Salve Jorge disse...

Era dela
Com certeza
Aquela fronteira
Fábula verdadeira
Da destreza
De uma criatura tão singela
Em redecorar uma aquarela
Sobre a toalha de mesa
Como se fosse passageira
A linha tênue de se equilibrar na beira
Com o vento que puxa
E a vontade que empurra
Uma ducha
Um peito que urra
Uma surra
Mas o peito não murcha
Só pulsa...

Gabriele Fidalgo disse...

Fantástico, Clara!!

Nicky disse...

muito lindo o modo como vc escreve, contando em detalhes para q possamos visualizar a cena, como em um filme

beijo

Fernanda Alves disse...

Linda essa tentativa intensa e simples de equilibrar os contrarios,
aquientante
barroco
um texto cheio de sentimento e uma serie de outras coisa.=)

André Souza disse...

Clarinha, lê meu blog.
Tem coisa sobre as borboletas nos cabelos.

Thaís Nóbrega disse...

clariceana não.
clareana mesmo.

tu já criasse teu estilo próprio de escrita. clareante mesmo :)

=*

Késia Maximiano disse...

ela era dela

grande verdade...

Carla Silva e Cunha disse...

ola

voltei para dizer que a originalidade do seu blog me agrada muito...continue.


Muitas felicidades

carla

http://www.arte-e-ponto.blogspot.com