14.10.09

Pas exactement ce que

Era para ser cotidiano, visto que a freqüência no bar é constante, a cerveja é a mesma e a nossa disposição para conversa afiada é contínua, mas não é.

Entrei no bar para desafogar a pressão do dia, para esperar pela próxima aula. As companhias eram das melhores, duas mulheres dispostas a fazer da noite que apenas começava um poço aberto de sorrisos. No entanto, você também estava lá, na mesma mesa, a do cantinho, com a mesma cerveja e a mesma companhia, tentando fazer parte de um cotidiano que tendia à normalidade. Quantas vezes já expliquei que, na minha vida, cotidiano é uma palavra sem sentido, visto que, a inexatidão das minhas vontades atropela qualquer padrão, desencaixa-se? Você sabe. Você sabe de muitas coisas e diz todas elas, em silêncio, naquele teu olhar desafiador e desentendido. Você sabe, eu sei que você sabe. E à medida que vais rindo, elas vão escapando milimetricamente e voam, até mim, me entorpecendo de qualquer droga alucinógena que fabricas ao sorrir. As tais coisas ficam sob a mesa, pairam sobre a nossa direção, como um diálogo interno, invisível, inseguro. Há um fluxo intenso de ilusão minha e escolha tua que navegam sobre as cadeiras, interditam os copos e saem da nossa boca em forma de palavras aventureiras, sabe-se lá para quem. Mas ai, nesse estágio de embriaguez, tudo se desmancha, o cigarro queima. É que tudo tende a acabar, sabe? Claro que você sabe. Você sabe que o Marlboro vai acabar e justamente por isso insiste em fumar rápido, enquanto as outras pessoas falam qualquer coisa sobre a minha intensidade, sem notar a tua. Era para ser cotidiano, era para cair na banalidade dos dias, era tanto. Te ver pode ser fato comum, mas te sentir vasculhar minhas ideias e levantar meus pés do chão é muito mais do que duas ou três linhas de uma crônica qualquer. É coisa que não se escreve, coisa que não se fala, apenas explode. É o prazer de devorar o cigarro antes que ele vire cinza, a necessidade de saber o que vem na próxima página e a delicia de descobrir-se inteira. Isso não é cotidiano, isso é dança.

Ao nosso lado, as coisas vão se repetindo. As pessoas ficam mais maleáveis devido ao álcool em excesso, amizades surgem, segredos são revelados e todo mundo acaba brindando por um motivo qualquer, a pauta do dia, o tombo da vida. Cada um vai se perdendo em si e se repetindo, em goles. Até você se repete e me dá um cardápio de ilusões, de todo preço. Bêbada, peço a mais cara só para competir com as minhas crônicas mal escritas, os amores brotados nos versos desconcertados e toda essa coisa que, agora, eu não me lembro.

As palavras estão se jogando da minha boca, sem o menor critério. Parece que elas sempre esperaram por essa hora para dar margem ao discurso certo, as intenções verdadeiras, ao que realmente transborda nessa mesa. Contudo, todas as minhas frases fugirão desse dia a dia bitolado e sem muito espaço para a vida, irão te confundir as entranhas e isso é um abismo para nós dois.

Esquece tudo isso. Volta para teu cotidiano.

17 comentários:

Byers disse...

=D oie flor.

Foi no blog certo sim ... esqueci de te indicar o end direto né? Desculpe a indelicadeza.

Então, a Sunshine é assim: compliação de vários poemas, cronicas e poesias, até o presente momento eu ilustro todos os textos, dái como fica:

Agente conversa sobre um texto que simbolize o seu jeito de escrever, sua proposta, eu vou lá e publico na edição, que sairá em dezembro, início do verão.

Dai vi que tu escreve mais, contos, prosas, que eu gostei tb, mas queria dar foco é nas suas poesias.

Tem como me entregar um texto que tu goste mais até sexta feira? Depois agente troca mais figurinha.

abraços e obrigado ai pelo sim! rs

Intimidador. disse...

Sincero e bonito isso.

Eu, Thiago Assis disse...

a inconstância é algo admirável,
mas é dificil manter-se nela, né?

Ni ... disse...

E tomara que volte...

Asas, sonhos e coração... disse...

Se não fosse assim não seria tão você.
Um brinde.
Te amo!

Jaya disse...

É tu. Milimetricamente, tu. Desse jeito torto, tal qual minha conjugação errada.

É amor...

Lorita disse...

Volta sim!

;)

Thaís Nóbrega disse...

tá se superando no quesito descrições, visse?

Gabriele Fidalgo disse...

Ai, Clara.
Adoro aquele alívio que dá depois de ler um texto intenso desse. E me identifiquei tanto com esse.
Como a Thaís falou, tá se superando mesmo, hein?

vamos escrever então, que é muito bom.

e ó, reabri os portões cor-de-rosa do Strawberry Fields. :D

beijão

Matheus N. disse...

ah Clara menina, vou dizer o que?
que todo esse 'desespero' ao fumar é coisa estranha? que essa palavras que brotam em meio a distância de mesas se perdem entre os interlecutores errados? ou que toda essa repetição é descabida? jamais, isso é a normalidade, cotidiano agora. vocês estão, ainda que longe, no mesmo :*

você foi sublime aqui

vinilliterario disse...

O cotidiano nem sempre é o que parece ser.

Thomaz Ribeiro disse...

Dura a vida de quem gosta de alguém que não vale à pena. A história que você escreveu é a mesma de milhões de pessoas.

Byers disse...

Olha eu denovo flor.

Então dei uma fuçada no seu blog com mais calma esse fds, escolhi o post do dia 18.8.09

Mas como seu blog tem trava anti-cópia vo pedir pra tu me enviar esse texto em arquivo, pode ser doc ou txt, tudo bem flor?

Ahn, me mataria achar o script que bloqueia e eu mesmo pegar ....rs to meio enrolado aqui.

=D boa semana.

Sunflower disse...

e xispa já daqui.


Beijas

Byers disse...

Ah ah que mancada!

binho_byers@hotmail.com


rs jura que eu me esqueci de fornecer o e-mail? aff...rs

ato falho viu.

On The Rocks disse...

cotidiano sem sentido... (rsrs)

bj

André Luiz disse...

abismos