7.6.10

Encruzilhada



“Começava com um verso de Cecília a minha carta. Aquela que eu nunca te enviei. Ia com as flores do meu jardim e um eu te amo, escrito em uma letra bonita e garrafal. Ia. Nunca a deixei sair da gaveta, sabe-se lá por quê. Acho que, na época, eu só queria te mandar delicadezas, provas inusitadas de amor, essas coisas que se diz quando o outro faz algum tipo de diferença na tua vida. Mas é que, às vezes, amor demais complica, palavras demais extrapolam o limite das páginas e dá aquela sensação de que não há fôlego alheio para acompanhar os teus passos. E aí fica mais fácil colocar a culpa em alguém, naquele que não está “pronto” para receber as dúzias e dúzias de envelopes que, sem cansar, destinas a um endereço do que assumir o risco de caminhar tranquila com o silêncio...”






5 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

A rua da Aurora mudou de nome faz muitos anos, mas tenho um disco do Mário Lago com a canção Aurora, a qual me deixa cansado e triste, e costumo pular essa faixa do disco:

Lembra o tempo em que trabalhei de cozinheiro num navio chamado Aurora, o mundo era cinza, e eu nunca via a verdadeira aurora nem as estrelas.

A primeira estrela que vi foi uma estrela-cadente, lembrei de fazer o pedido:

Veio sim o pedido, mas tudo o que veio, veio tarde...

E também a verdadeira aurora hoje me entristece:

Metáfora do tempo em que escrevi à mão, diariamente, cartas líricas que envelopei artezanalmente, selei e postei, durante novecentos e dezenove dias. E jamais conheci da minha amada a palavra escrita, a caligrafia...

Marcos Satoru Kawanami disse...

Vc que é de Recife, conhece algum pedaço da rua aurora?

...loucos apontamentos disse...

caminhar tranqüilo acompanhado pelo silencio...

Marguerita disse...

Uma vez pensei que meu coração fosse explodir e transferi tudo que queria dizer para uma carta e morri quando soube que ela chegou no seu destino.
E quase morri de amor colhendo os frutos guardados naquele envelope.

Bem, teu post cruzou com o meu.

Beijos...

Fernanda Deunizio disse...

amor demais. adorei.

ah flor, Valdiz é meu pai. Só que ele tem vergonha do que escreve. Ai, pediu pra mim por 'VALDIZ'.
Adoro o que ele escreve.


Um beijo. Sempre por aqui, Fer.